domingo, 18 de outubro de 2015

A arte



Tira o pé do freio e põe a mão na manivela. Eis a frase que me faz dar início a esta crônica, e uma frase digamos bem crônica. No mais, muito comum, igual. Porém, que me dá ares para diversos pensamentos acerca da arte.
Talento não é uma palavra para expressar, como proferem as piadas nas redes sociais, que o indivíduo é lerdo. ‘Tá lento. Em nenhuma hipótese também eu nomearia alguém com talento por que essa pessoa é capaz de compor uma música. Ou escrever um poema. Ou um livro. Ainda tracejar um quadro à óleo. De forma alguma produzir quaisquer itens considerados arte, faz de ti um artista. Ou alguém munido de talento, nem dom.
Dominar a arte é dominar a si mesmo. Como um samurai faz para com a lâmina: ele se torna a sua própria lâmina. É preciso se tornar a própria arte, quase como se perder nas razões e afluir em emoções. Acalme-se, vou explicar é já.
Pinte o quadro perfeito. Cada traço com o carinho e o amor mais amplo o possível. Escreva um poema sobre o amor. Rime com flor, com dor, com cor, com despudor. Componha a música mais linda. Que se cante as frases mais ouvidas da história.
Máscara de La-Roche Cotard, datada em 33.000 anos ou mais.
FONTE: http://ma.prehistoire.free.fr
Ars1 é quando você se perde. Não quando copia ou faz algo para outrem. Não escreva teus poemas para agradar ninguém senão a ti mesmo, e aí estará fazendo arte. Não ponha livros com histórias que venderão mais, e aí te chamarei de artista. Pinte apenas aquilo que sua alma estiver pulsando, traduza suas vibrações e teremos quadros invíctos. Originais. Únicos.
O amor é o calor que aquece a alma. É fácil demais expressar, seja na música, no texto ou na imagem, aquilo que experimentamos na vida. Nossos conhecimentos a posteriori sobre o mundo que avistamos. E mais fácil ainda falar aquilo que nosso público alvo quer ouvir. Grave aí teu vídeo para internet ou faça tuas charges para agradar o público e estará apto a ser aplaudido. Ganhará ares de artista, ou talentoso. Mas existem dois tipos de escritor, em resumidas palavras de Schopenhauer: os que escrevem por amor e aqueles que escrevem por dinheiro.
Existem dois tipos de arte: a que o mundo aprova e aquela que existe na imensidão de cada um. E dois artistas: o que pinta para os olhos alheios, e o que exprime com amor os traços de sua alma. Acho que esta foi a crônica mais estranha que me saiu, até o instante. Mas aí está, fiz sem qualquer ensejo artístico, fiz com a razão. E sem intenção de brilhar olhos de outrem.
Sei não, talvez minha visão sobre arte ainda esteja aos cacos. Uma pedra sem qualquer sinal de lapidação, contudo, é capaz que esta pedra seja linda dessa maneira rústica e comunal. Sei não.
Fico só com a pergunta: qual será a melhor opção para mim: escrever para os outros amarem, ou escrever por que amo?

1. Em latim, arte, técnica.

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