quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O sapo que ousou invadir meus pensamentos

      Interessante é como, a uma pessoa que muito lê, ao lhe subir uma ideia qualquer no trampolim machadiano, esta se guinde a outra ideia, e consequentemente a mais outra e outra. Interessante é como se forma uma literal corrente de pensamento, ligando pontos muitas vezes aparentemente absurdos, contudo, que no fio racional fazem algum sentido.
      Não detalho como foi que acabei ligando uma simples barata, que não voava, ao sapo temperado com o sal das madames medievais. Digo somente que ambos têm a ver com a morte e que, no ato de exterminar a um, pensei no outro. Aí me foram, então, as ideias fazendo todo o tipo de cabriolas e na filosofia das pernas, também do Machado, vi que acabei não sacrificando duas vidas. A da barata e a do sapo.
      Quanto ao segundo, esse veio pulando nos meus pensamentos, bem tranquilo e cheio de estratagemas. Pulava uma vez e ficava a me olhar, depois tornava a dar outro pulo para me ver parado, pensando. Um sapo cauteloso, que foi se assomando à ideia da barata e por ali ficou, misturado, estrangeiro. Pulou da terra da minha imaginação para o rio corriqueiro dos meus pensamentos, para os fluxos que a todo instante trazem mil e uma ideias diferentes e que desabam sempre no mar das minhas filosofias. O sapo, uma vez na água, começou artisticamente a coaxar.
      Então, imaginei como foi que descobriram que se jogarmos sal nas costas de um sapo, ele morre. É certo que uma senhora, imagino da Idade Média, estivesse preparando despreocupadamente o almoço para o seu marido artesão e, eis que de súbito aparece um sapo na porta da cozinha. Desesperada e com certeza medrosa, pega a primeira coisa que está à mão e lança no pobre bicho. Infelizmente esta coisa é um pote de sal e o sapo, desafortunado e sem escolha, pula algumas vezes e morre.
      Não entendendo o por que da morte do sapo pelo sal, mas muito feliz por seu êxito, aquela mulher desata a contar seu truque a todas as suas amigas. Que contam a outras amigas e assim, em pouco tempo metade da população medieval já sabe do ônus do sapo contra o sal. E os maridos, curiosos, também ficam sabendo da história e contam aos amigos. Que passam a todo o mundo, de geração em geração.
      Não acho que seja uma boa ideia, nem sei se isso realmente funciona. Tudo o que sei é que o coitado do sapo não faz mais que pular e coaxar, e quando entra em desespero urina pelas costas - como me ensinaram minhas velhas tias, ou tias velhas, em um dia de puro senso comum. Lógico: hoje sei que não é urina do sapo, mas sim uma simples secreção ácida que ele excreta para se defender. Pobre anfíbio, tão mal interpretado.
      E ademais, aprendi do sal enquanto criança e embora não saiba se realmente faz sentido tal costume, admito e não omito: cloro-sodifiquei alguns sapos por aí, uns inocentes e assustados sapos que surgiram na minha frente. Todavia, são os meneios da meninice, leitor, são coisas tão perdoáveis quanto as florescências de quando jovem.
      Hoje não mais quero ver sapo com sal, tenho até certo asco por quem faz o triste bicho sofrer assim. Acho que se topar a um coitado destes cheio de sal nas costas, sem muito pensar, sou capaz de parar e limpar todo ele para depois prosseguir. Tamanho é o meu amor, pela vida e não pelos sapos. Daí eu faço com o gorducho o mesmo que fiz com a barata que ousou se aproximar demais de mim. Mas, é fábula para outra moral, adianto apenas que não matei a baratinha, como já bem disse antes. E vá lá: deixemos mesmo a outro dia, outro momento, que eu preciso ver o que houve ao sapo danado que ousou invadir meus pensamentos.
Escrito especialmente para Maria Cipriana por
Vítor Duarte,
Escritor.

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