sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Repeteco

        Um velho corcunda a atravessar a rua. Um corcunda que vai com cautela na Av. dos Pinheirais. A pior avenida de todo o mundo. Meu Deus, porque tende aquele velhote a estar ali? Poderia ele estar em uma mesa a joguetear com amigos, a rir ao lado de uma cervejinha. Ou em casa, sossegado no seu cantinho, a ler um jornal ou uma revista. Mas não: lá estava o velhinho a transpassar a avenida, uma avenida movimentada o dia todo, enquanto houvesse sol.
        Corri ajudar o amigo, um senhor de idade precisa de ajuda. Abracei o corpinho magricelo nos ombros e, segurando o idoso pelo braço trouxe ele para o outro lado da pista, da avenida. Sem perigos, sem problemas. Ajudei, gosto de ajudar. Então, ao retornar para o caminho em que eu seguia antes mesmo de pensar no velhote, um carro. Ah, carro maldito! Foi me aparecer diante de meus olhos, e o pior: acertar meu corpo e lançar ao longe minha vida. Assim, perdido no acidente, fui atropelado e deixei um pedaço de minha alma naquele mesmo lugar. Um pedaço de meu ser, minha consciência de que existo ficou implantada naquele asfalto duro e cru, com algumas rachaduras e também pedras soltas. Salvei uma vida, mas quase perdi outra.
        Eis o pagamento eterno, a dívida divina que me foi cobrada na hora mais exata. Aí está, leitor, aí está o fado que carrego hoje: machucado até a morte, não no físico e sim na alma. Meu espírito se encontra sangrando apenas por lembrar mais uma vezinha que meu sangue e metade de mim valeu o mesmo que um velhote. Eu a iniciar a vida, quase dei fim a ela por alguém que já está se acabando. Quase não começo minha vida por uma pessoa que finda a sua com tranquilidade e paz, a esperar num lado da rua que alguém, uma criatura bondosa o bastante, venha levá-lo ao outro lado e assim, ficar por lá mesmo. E começar tudo outra vez, no repeteco que se torna a vida da gente.

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