sábado, 7 de janeiro de 2012

Parar um pouco o tempo

         Como queria poder parar o tempo, travar uma batalha com o relógio das horas naturais e provocar uma mudança sem-igual. Para poder ficar ao lado de Pandora, ter essa perfeição em beleza e qualidades para sempre ao meu lado. Queria poder congelar a areia da ampulheta e assim congelar também os bons momentos. Viver apaixonado pelo resto da vida, assim como Narciso pela própria imagem. Mas, meu amor não seria a beleza que não possuo, e sim Pandora, que todas as vezes me vem sussurrar brasas nos meus ouvidos, ateando fogo às lenhas que compõem meu corpo. Juro que por essa mulher inigualável seria capaz até de beijar, boca por boca, das Moiras, e fazê-las parar o destino. Pedir, de joelhos que parassem de tecer os fios da vida e do tempo. Que deixassem meu amor durar um pouco mais e que a morte não me viesse assim tão breve. Seria, por esta Pandora da minha vida, capaz até de vender tudo o que tenho para Caronte, e então atravessar com o barqueiro sombrio e flácido, todo o submundo. Indo até o mais profundo da existência, fugindo da própria ciência. Isso para encontrar as velhas Moiras, lúgubres e más tecelãs que são. Nojentas! Porque me fazem sofrer assim e não me dão logo a vida eterna? Não me dão de beber o elixir mágico fabricado com o poder das mais grandes estrelas. Nem me dão o tear das linhas de ouro, ao invés de um algodão podre e gasto. Não quero mais ser tecido assim, que venha a minha fazenda por completa estragar, mas dessa forma não vivo. Não assim: pronto para deixar de viver. Pronto para sair de cena e partir junto com Caronte em uma viagem sem retorno. E no permeio do caminho esbarre na nobre Euridíce a suplicar pelo marido, e Orfeu com sua lira corresse até sua amada para tocar para todo o sempre. E me comovesse, e chorasse. E desejasse ter parado um pouco o tempo, parar um pouco o tempo quando ainda estava com a minha linda Pandora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe um comentário no meu blog, não custará nada. Às vezes, leitor, é bom expressar nossos pensamentos.