quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Fui atropelado esta tarde


Fui atropelado esta tarde. Vi toda a vida em instantes, e ela passava aos milésimos de segundos diante de meus olhos. Difusa, confusa. O interprete da consciência disse que iria me abandonar, eu só tinha mais uns minutos, indecisos minutos. A música soava ao fundo, calma, aconchegante. Era uma música fúnebre até, acho que a mais conhecida de todas. E nos meus dantes risonhos pensamentos observei o mundo girar. O mundo, este maestro das coisas e de tudo, guia os movimentos e determina começo e fim. Desenhava no ar com sua varinha os compassos para a música, meu corpo era obrigado a dançar conforme o tom. O ritmo não era meu, nunca foi. E esta tarde então me foi passando, deixando de lado momentos e conquistas. Criações e destruições, o buraco mais fundo do viver. A lacuna sem qualquer necessidade, onde está aquele sonho que deixamos de conquistar. O caminhão de confusões e problemas havia me engolido por completo, já não era mais quem queria; se bem que acho que nunca fui. Queria ser apenas eu e ter a vida minha de volta. Quando criança, talvez o fosse e de mim fosse minha a vida. Mas, o tempo passou, a vida mudou. Olhei para meus ferimentos, não existia sangue ali. Seja por que não eram machucados graves, seja por que meu corpo não comportava, contudo, não havia sangue ali. E a encapuzada morte se aproximava paulatina, calculista e fria. Meu momento, meu instante. A hora. Quem sabe se minha filosofia não valesse nada, ou meus dizeres sequer tivessem sido ouvidos. Horas e mais horas de cogitação, pensamentos à toa. Jogados no mais profundo abismo da mente, uma mente que agora se esvaía aos poucos. Acordei, sim, sabe lá deus quanto tempo depois, mas acordei. Estava no meu quarto, deitado na cama. Senti as dores em meu peito, sabia que tinha perdido algo em mim. Algo que, de algum modo incompreensível ou não, me completava. Bem, não sei direito como foi ou o que perdi. Sei: fui atropelado esta tarde.

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